DESMISTIFICAR O MITO ROMÂNTICO

Paul Ferrini

Admiravelmente, boa parte de nós adere ao conceito romântico de que uma outra pessoa será capaz de nos completar e de nos fazer feliz. Porém, como duas pessoas que se sentem machucadas e incompletas podem criar um todo? É impossível.

O grande erro nos relacionamentos é acreditar que é responsabilidade do outro nos amar e nos fazer feliz. Nós podemos compreender a origem desta crença. Todos nós começamos nossa vida neste mundo dependendo do amor e do apoio de nossos pais. E não existem pais, por mais amorosos que sejam eles, que possam preencher inteiramente, nem mesmo a maior parte, das necessidades de seus filhos. Além do mais, eles mesmos se sentem mal amados e sem valor, e muitos pais são incapazes de amar seus filhos e de lhes proporcionar bem-estar.

A maior parte das crianças faz acordos com seus pais com o objetivo de obter o amor e a aprovação que elas necessitam. Estes acordos implicam diferentes formas de amor condicional. Isto pode se revelar através da crítica, da rejeição e até mesmo dos abusos físicos. Assim que as crianças se tornam adultas, as feridas da infância vêm a superfície e possuem uma grande influência em suas relações.

Nós procuramos um parceiro que nos dê o amor que nós não recebemos de nossos pais, mas, ironicamente, nos acabamos nos encontrando com um parceiro que é a réplica de nossos pais e que interpretam os mesmos papéis que nossos pais interpretaram. Os padrões abusivos e destruidores são repetidos afim de que nós tomemos consciência deles.

Por quê? Porque o objetivo de uma relação não é compensar todo o amor que nós não recebemos quando criança. O seu objetivo é indicar o que nós devemos curar em nossa criança interior machucada, no nosso coração e nossa mente. O Objetivo de uma relação é nos mostrar os padrões de co-dependência que nos fazem sofrer e nos ensinar a darmos a nós mesmos o amor que buscamos desesperadamente fora de nós.

Infelizmente, até que nós renunciemos ao mito de que uma outra pessoas possa nos amar, nos curar ou nos fazer sentir melhores, nós iremos conhecer, sucessivamente relações de co-dependência. Eventualmente, nós poderemos perder a esperança e concluir que alguma coisa está errada conosco e que nós não merecemos o amor. Seguramente isto é falso. Nós devemos, simplesmente, parar de procurar o amor e a aceitação no exterior de nós mesmos.

Antes de esperarmos ter a sorte de viver uma relação íntima decente com um outro ser humano, nós devemos aprender a nos amar e satisfazer as nossas próprias necessidades, nós mesmos.

Isto significa que nós devemos parar de nos esconder de nós mesmos. Nós devemos compreender quem nós somos. Nós devemos aprender a reconhecer, a aceitar e a amar a nossa criança interior.

Enquanto nós não estabelecermos esta amizade existencial com nós mesmos, nos será difícil, talvez impossível, de ter um relacionamento satisfatório com outra pessoa. Se nós ignoráramos como viver com nós mesmos, como poderemos esperar saber como viver com uma outra pessoa?

A solidão deve ser encarada. Passar de um relacionamento à outro porque temos medo de nos sentirmos sós apenas retarda o inevitável.

Todavia, é necessário sermos realistas. A maior parte de nós não poderá viver só antes de ter aprendido a amar a si mesmos. Então, a aprendizagem do conhecimento deve se fazer, em grande parte, através dos relacionamentos. Esta é mesmo a razão da existência dos relacionamentos.

Mas é uma estranha situação, quase uma maquinação.

Nós podemos tentar entrar num relacionamento com alguém com o objetivo de fugir dos nossos conflitos e dos nossos sofrimentos interiores, mas isto não funciona. Cada um dos nossos relacionamentos nos confronta com o sofrimento – qual que ele seja – e com as feridas que nós portamos em nós mesmos.

As descargas de hormônios e a atração sexual, as fantasias e as noções românticas que nos temos com relação à alma gêmea e os relacionamentos não são mais que a isca e o anzol. Porém, esta isca parece funcionar muito bem, haja visto que nós somos numerosos peixes a se deixarem fisgar e serem projetados às provas de um relacionamento.

Les Lois de L’Amour – Paul Ferrini – tradução livre Jorge Salum

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