O RESPEITO DE SI E DOS OUTROS 

Paul Ferrini

Algumas verdades simples

Existem apenas duas coisas que você, ou qualquer outra pessoa, tem necessidade de compreender. Primeiro você tem necessidade de compreender que a tua experiência de vida é perfeita para você. Apesar do que você possa pensar ou do que os outros possam pensar, não existe nada com relação a você, nem com relação ao que você vive que tenha necessidade de ser mudado ou curado.

Nós podemos considerar a tua experiência de vida como teu mestre. Você está em constante diálogo com ela. Se você desejar realmente, você poderá aprender muito com ela. E isto é verdadeiro, quer você goste ou não o que você vive. De fato, a maior parte do que você aprende durante esta vida consiste em encarar aspectos de sua vida que você tem dificuldade de aceitar. É aí que reside o teu crescimento.

A outra coisa que você deve compreender é que a experiência de vida dos outros é perfeita tal qual ela é. Eles não têm necessidade que você os reforme, eduque ou cure. Eles vivem as lições às quais eles têm necessidade para crescer e tornarem-se seres humanos mais amorosos e abertos.

Compreendendo bem estas duas coisas e as colocando em prática conscientemente, você criará muito menos sofrimento em tua vida.

Uma maneira de colocar em prática o que você tem consciência é parar de se julgar, se culpar ou de crucificar a si mesmo. Se isso for muito difícil para você, então, simplesmente, tome consciência destes julgamentos que você tem com relação à você mesmo e trabalhe para perdoar e “desfazer” estes julgamentos, consciente que eles não tem nenhuma relação com a verdade.

Outra maneira de praticar é parar de julgar, culpar e crucificar os outros. Quando você sentir crescer os julgamentos com relação aos outros, tome consciência que estes julgamentos dizem respeito apenas a você e não aos outros. De fato, eles apenas indicam que existem partes de você que reclamam e pedem que você as aceite e as curem. Tome consciência dos momentos nos quais você aponta os defeitos dos outros e libere-os de seus julgamentos. E então, você se liberará de você mesmo.

Estas são duas práticas muito simples. São ferramentas que podem transformar a tua vida. As palavras e os conceitos são simples, porém é na prática que reside o desafio.

Você pode passar toda a tua vida a procurar soluções complicadas para os teus problemas, mas você perde o teu tempo. As respostas são simples. E elas estão aí, junto de você.

Para encontrá-las, comece a olhar para o teu interior. Ninguém, além de você, possui as respostas para você. Assim como você não possui as respostas para quem quer que seja além de você.

Ninguém, além de você, pode te fazer feliz. Ninguém, além de você, pode te deixar triste ou infeliz. A tua felicidade, como a tua infelicidade, só pertencem a você.

Não procure ninguém que o te salvará de teus pecados. Isto não acontecerá jamais. Todos aqueles que se autoproclamam salvadores são lobos disfarçados de cordeiros.

Não culpe mais ninguém pelos teus erros. Ninguém pode ser responsável pelo que você acredita ou pelas escolhas que você fez.

Guarde estas simples verdades presentes em tua mente o tempo todo e utilize-as conscientemente. Trata-se de um caminho reto. Ela só parecerá tortuosa quando você tentar desviá-la para satisfazer tuas necessidades inconscientes.

Que estas fronteiras sejam bem claras para você! Toda transgressão só se produzirá pela falta de clareza quanto às responsabilidades que pertencem a você e àquelas que pertencem aos outros.

Você é responsável por você mesmo. Os outros são responsáveis por eles mesmos.

Faça o que você pode fazer por você mesmo. Não peça a ninguém para fazer por você o que você pode e deve fazer por você mesmo. Não renuncie ao teu poder.

Faça o que você pode pelos outros. Conceda tua ajuda quando alguém a pedir e quando você pode oferecê-la voluntariamente. Mas não faça além do que você poderia fazer de boa vontade.

É importante ajudar os outros quando você puder, mas não faça por eles aquilo que eles devem aprender a fazer eles mesmos. Se você insistir em assumir falsas responsabilidades com relação aos outros, você os convida a te culparem assim que você fizer algo que não for do gosto deles.

Ninguém te elegeu com salvador. Então, por favor, não tente ser um.

Deixe-me te prevenir de uma coisa: todos os salvadores serão crucificados. Todos que forem colocados em um pedestal se encontrarão cobertos de piche e plumas e serão arrastados para a lama. Por favor, reflita sobre isto antes de subir no pódio e dizer aos outros que você tem a resposta para os problemas deles. 

Esta é a natureza da projeção. E Isto acontece devido ao fato de você ter definido mal as tuas fronteiras, porque você não sabe o que é tua responsabilidade e o que não é.

Apenas você é responsável pelo prazer ou sofrimento que você sente. Nem o seu ser amado, nem seu inimigo.

De fato, é possível que até mesmo você não seja responsável à nível consciente. Então, não se crucifique se você sofre. Deixe o sofrimento ser teu mestre.

O papel dos outros na tua vida não é de fazer as coisas por você ou de te dizer o que fazer, mas de te ajudar a descobrir a verdade com relação a você mesmo. Este é igualmente o teu papel na vida deles.

O teu papel é de ser um amigo para os outros e de estar aberto à amizade que eles oferecem. Você não precisa carregá-los, nem que eles te carreguem. Apenas as crianças têm necessidade de serem carregadas, e não tão por tanto tempo como você possa acreditar.

Mesmo se você possa cumprir uma tarefa melhor que o teu irmão, você deve deixá-lo fazê-la. O que quer que ele tenha escolhido isto lhe pertence. Recolha-se um pouco e dê a ele o espaço que lhe pertence. E nem fique supervisionando se ele está desempenhando corretamente.

Quando alguém, seja um adulto ou uma criança, deseje aprender qualquer coisa com você, comporte-se como um modelo. Demonstre o que deve ser feito, fazendo você mesmo. Deixe a pessoa te olhar atentamente para praticar em seguida o que você acabou de fazer. Assim que ela tenha aprendido o que você pode lhe ensinar, empurre-a para fora do ninho.

Não encoraje a dependência nos outros. Logo que você ofereceu ajuda à alguém e esta pessoa a recebeu, alegre-se e deixe-a ir livremente.

Quando um aluno retorna sem parar, pedindo sempre mais ensinamentos, tome consciência que um padrão de dependência está se desenvolvendo. Não encoraje isto, mesmo quando isto possa ser vantajoso financeiramente.

Acredite nos outros mesmo quando eles não acreditam em si mesmos. Diga-lhes que você sabe que eles podem ter sucesso e deixe-os ir.

Um bom professor dá ao seu aluno a chave do seu próprio poder. Um bom terapeuta ajuda seu cliente a adquirir as ferramentas que são necessárias para ele se tornar autônomo.

Nós estamos aqui para facilitar o progresso dos outros, não para se prender a eles. E nós só podemos ensinar aquilo que nós mesmos estamos prontos a aprender.

A Verdadeira União

Todas as relações oferecem um potencial de desenvolvimento, no entanto elas raramente se mostram à altura do que se espera dela porque as pessoas desenvolvem uma codependência. Elas tomam responsabilidades que não são suas com relação aos outros, e não tomam as responsabilidades com relação a elas mesmas. Depois elas culpam os outros por aquilo que vai mal em suas vidas. É um círculo vicioso.

Podemos ser felizes com qualquer outra pessoa. Podemos ser infelizes com qualquer outra pessoa. A alegria, assim como a tristeza pode ser compartilhada. Porém, a alegria de um não é a responsabilidade do outro, assim como a tristeza, também não é.

Enquanto nós não compreendermos isto, será quase impossível de conseguir viver harmoniosamente com qualquer outra pessoa. E mesmo se nós tivermos compreendido perfeitamente este princípio, lembrá-lo na presença de nosso companheiro torna-se uma prática espiritual de todos os momentos.

“Estar com” uma outra pessoa é uma experiência extática assim como é extático “estar com” você mesmo. No entanto, “estar com” pode se experimentar apenas um instante, um instante após o outro. Isto não tem nada a ver com o que o meu ego deseja ou com o que deseja o ego de meu parceiro.

Meu ego quer que você “esteja aí” por mim, quer você queria ou não. Meu ego quer tornar você responsável pela minha infelicidade. Meu ego quer você faça as coisas como eu desejo. Pouco importa o que você faça para satisfazê-lo, você jamais conseguirá satisfazê-lo porque meu ego sempre recusará a tomar responsabilidade pela sua própria felicidade.

A partir do momento que um ego torna-se responsável por ele mesmo, ele deixa de ser um ego. Então eu paro de exigir coisas de você. Eu começo a te aceitar como você é. Eu me abandono ao momento presente, à verdade de quem eu sou e de quem você é. É o momento da verdadeira união, assim que as fronteiras entre nós desaparecem, não por que elas sejam inapropriadas, mas, porque nós as respeitamos integralmente. É o momento onde dois se fazem um, sem se perderem, sem sacrifícios, sem expectativas. É um momento de puro encantamento, um momento no qual a promessa de amor incondicional é enfim realizada.

Uma Parceria

Eu não compreendo porque alguém pensaria que é mais fácil amar qualquer outra pessoa que a si mesmo.

Se é difícil para você ser bom para você mesmo, aceitar teus erros, te perdoar pelos julgamentos que você carrega, enfrentar teus medos, como você acredita que poderia fazer tudo isso com qualquer outra pessoa? Se é difícil par você oferecer amor à criança ferida que grita de dor dentro de você, como você acredita poder oferecer amor ao teu parceiro quando ele te mostra os aspectos indispostos de seu ser?

É impossível de oferecer ao teu parceiro o que você não pode oferecer a si mesmo. Procurar fazer isso só poderá trazer sofrimento, para você e para o teu parceiro.

Você deverá começar aí, onde você está e não onde você desejaria estar. Se você está com raiva, você deve começar pela tua própria raiva. Se você se sente só, ansioso, se você procura o teu valor através da aprovação dos outros, isto é que você deve observar com toda a tua atenção.

Não que seja impossível fazer isso num relacionamento, certamente o é, mas apenas se os dois parceiros desejam realmente se ajudarem, um ao outro, a olhar para as suas feridas.

Porém, para ajudar os ser amado a olhar suas feridas é necessário aceitá-lo exatamente como ele é. Se você possui a necessidade de mudá-lo, de curá-lo, de psicanalisá-lo, você não chegará a criar um contexto seguro do qual ele poderá observar seu próprio sofrimento.

Ele só poderá encarar o próprio sofrimento quando ele sentir que pode “estar com” seu sofrimento em total segurança. E ele só se sentirá seguro quando souber que não haverá julgamento de outra pessoa.

O amor se constrói sobre a aceitação e a confiança, não sobre o julgamento e a interpretação.

Criar um espaço seguro é uma coisa fácil assim que você deixa seus medos para trás. Você já deve ter feito isso para outras pessoas em um momento ou outro da tua vida. Você se colocou à altura, atendendo as necessidades de uma outra pessoa, colocando de lado os seus próprios problemas. Você estava lá para estas pessoas, não necessariamente com palavras, mas você ofereceu a tua presença, sua solicitude e seu apoio.

Eu não falo de alguma coisa que você não saiba fazer.

Mas não é fácil de criar um espaço seguro para os outros quando alguém te “indispôs”, quando o medo cresce em você, quando a tua mente se envolve a colocar julgamento sobre julgamento. Nestas circunstâncias já não é fácil de criar um espaço seguro para você mesmo. No entanto, é o que você deve aprender a fazer.

Você deve aprender a experimentar o medo sem se autoflagelar, sem projetar seus julgamentos para com você sobre os outros. Você deve aprender a fazer do medo seu companheiro e caminhar ao seu lado. Você deve conhecer a causa de teu medo, as causas do teu sofrimento, antes de tentar superá-los.

Caminhar, pacientemente, em companhia do teu medo e de teu sofrimento te conduzirá a um espaço de compaixão mais profunda para com você mesmo. Você será guiado ao centro de teu coração. E, no centro do teu coração, você sentirá não apenas a tua própria dor, teu próprio medo, mas o medo e a dor de todos aqueles que você encontrar.

Amar é se reencontrar ao nível do coração. Nós não podemos amar de outra maneira que com o coração. 

O amor não é uma poção mágica. Não é uma descarga de hormônios. O amor tem pouco a ver com a sexualidade, embora a sexualidade possa ser uma expressão de amor.

O amor é aceitar o ser amado tal qual ele é. É deixá-lo entrar em teu coração.

Não existem técnicas para chegar a isto. Só existe o teu amor e a tua aceitação de você mesmo. Isto, e apenas isto, pode chamar o ser amado e fazer senti-lo que ele é bem-vindo.

Cada vez que você sentir o sofrimento de uma outra pessoa sem se sentir responsável, sem tentar modificar ou curar este sofrimento, e não fazer nada além de sentir o sofrimento no seu coração, você se encontrará nos braços do amor.

Não há nada de complexo ou esotérico nisto. Mas isto constitui um grande desafio e oferece oferece inumeráveis ocasiões de praticar no cotidiano.

O Êxtase

Amar a si mesmo é um ato extático, mas requer uma prática a cada instante. Isto significa abraçar o teu sofrimento da mesma maneira que o teu prazer, tua tristeza da mesma maneira que tua alegria, teus fracassos da mesma maneira que teus sucessos.

Isto significa aprender a confiar na tua intuição e aceitar teus erros como ocasiões de aprendizado, de crescimento e de estar mais em acordo com você e com os outros. Quanto mais você se ama a cada instante, mais o adulto espiritual aprende a abraçar a criança ferida, e mais a criança imperfeita, inclinada aos erros, aprende a aceitar a sua divina perfeição.

Se você tocar desta maneira o ser amado em você, então não será difícil de tocar o ser amado no teu parceiro. Você compreende que, no momento presente, ele é aceito, assim como você, mesmo quando ele está de mau humor. Além dá personalidade, você vê a verdadeira pessoa. Da mesma maneira que você aprende abraçar teus próprios estados de consciências contraditórios, você aprende a abraçar as contradições, a inadequação e a incompletude de teu parceiro.

E abraçando “o que é”, você percebe que tudo o que você acreditava faltando está presente. O ser amado é o perfeito ser amado para você. De fato, cada momento que passa é um momento perfeito, se você pode aceitá-lo incondicionalmente.

A perfeição nunca se encontra num objeto exterior si mesmo. Ela se encontra na atitude daquele que a observa. Quando as lentes, através das quais você observa, são claras, todos os objetos que você enxerga parecem magníficos.

O êxtase só depende de você. Ele necessita apenas da tua presença. Quando você está presente, o paraíso se revela em toda a sua glória. Sem a tua presença não existe êxtase possível.

Desta maneira, pouco importa quem seja o ser amado. Se você está presente, não importa quem possa ser o ser amado. Toda situação pode ser extática, quando você se entrega nela, quando você a aceita sem julgamento.

La Route Vers Nulle Part –  Paul Ferrini – Tradução livre de Jorge Salum

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