TOMANDO CONTA DE SI MESMO

Paul Ferrini

Em toda relação, a porta do “deixar ir” é mantida pelo ego de cada uma das pessoas. O ego deseja sustentação e a aceitação do outro, porém não pode lhe dar a mesma coisa em troca.

O ego tenta constantemente encontrar alguém para satisfazer as suas necessidades, porque ele não sabe como satisfazê-las ele mesmo. Ele está sempre pedindo algo que ele não tem ou que acredita não ter. Quando dois egos assumem uma relação ela não tem nenhuma chance de ser bem sucedida.

O “deixar ir” só acontece quando o ego sai do caminho, e ele não sairá do caminho enquanto ele não se sentir reconhecido.

Para reconhecer o ego, você deve ouvi-lo. Você deve escutar seus medos, seus desconfortos. Você deve deixá-lo saber que você não agirá de maneira à aumentar os seus medos.

Escutar os seus medos é um processo contínuo. No momento em que num relacionamento o outro te “provoca”, você deve escutar e encontrar o que existe por detrás dos teus medos, tomar consciência dos teus desejos, dos teus sentimentos de falta.

Depois de um certo tempo, você constata, sem sombra de dúvidas, que ninguém sobre a terra pode cuidar dos teus medos. Nem mesmo você. Tudo o que você pode fazer é “estar presente” para os teus medos até que uma mudança interior aconteça.

A tua consciência conduzirá gradualmente esta transformação porque estar presente à si mesmo é um ato de amor. Ver teus medos e “estar” com eles cria uma profundo sentimento de segurança psicológico. Esta é a essência do processo que consiste em tomar conta de si mesmo.

Numa relação íntima, a primeira coisa que você tenta fazer é encarregar o outro desta responsabilidade. E o outro faz a mesma coisa tentando passar esta responsabilidade para você. E logo que isto acontece, e que cada um aceita o falso sentimento de responsabilidade pelo bem estar do outro, a relação será mantida através da culpa e da projeção mútua.

Não se submeta a este sofrimento e não faça o outro se submeter a ele. Recue um pouco e assuma a responsabilidade pelos seus próprios medos. Tome pela mão a tua criança interior machucada e deixe o outro fazer o mesmo.

Assim que o teu ego se sentir em segurança, porque você tem estado presente para escutar os seus medos, ele se retirará. E apenas neste estado de abandono que você poderá encontrar o ser amado.

Todo o trabalho espiritual que você tem que fazer refere-se aos teus medos, não aos medos do outro. Estar consciente de teus medos permite um espaço no qual o outro pode oferecer a sua verdadeira presença. 

O ego tenta amar mas ele não pode. Ele só pode pedir e exigir. O amor não vem do ego, mas ele deve ir em direção do ego. O teu amor pela tua parte assustada, tua criança interior, cria um sentimento de segurança.

Quando você oferece o amor ao ego, ele não é um problema. Ele só torna-se um problema quando você não oferece amor. Quando você não oferece o amor o ego torna-se feroz e quase insuperável. Quanto mais você recusa de amá-lo e de ser responsável, mais as defesas do ego tornam-se fortalecidas.

Tomar conta de si mesmo é a atividade fundamental da vida espiritual. Assim que você estiver no amor do Eu, você não encotrará nada para criticar em você ou nos outros. Você não poderá sentir incompletude. Então, quando você tem um sentimento de falta, você sabe que é o momento de se oferecer amor. Quando você encontra defeitos no outro, você sabe que é momento de se oferecer amor.

Procurar o amor no exterior de nós mesmos só nos conduz à frustração e ao fracasso. Nosso ego exige que os outros tomem conta de nós e nos dêem a segurança que apenas nós mesmos podemos nos dar; então, nós nos sentimos rejeitados e traídos quando os outros não podem satisfazer as nossas necessidades.

Não existe um final feliz neste ciclo dramático. Toda união acaba em tragédia. Não porque o amor é impossível ou trágico por natureza, mas porque aquele que tenta amar é aquele que está com falta de amor.

AMOR NÃO SIGNIFICA NECESSIDADE

Exigir o amor de uma maneira específica, qual seja ela, é um gesto de não-amor. Mesmo se o outro pudesse satisfazer as tuas exigências, o que acontece raramente, você seria ainda infeliz. Assim que um buraco é preenchido, um outro é escavado.  Nossos pedidos e nossos desejos são apenas um abismo sem fundo. Pouco importa a aceitação e a aprovação que você obtenha dos outros, ela não será jamais suficiente. O que se desenvolve é uma dependência da aprovação. Quanto mais nós a obtemos, mais nós temos necessidade dela. 

A aprovação dos outros é um substituto inautêntico à aceitação do eu. Somente o amor do eu é satisfatório porque ele é autosuficiente. 

Suponha, por exemplo, que você decida fazer exercícios diariamente. Se você escolhesse o tenis, o basquete ou qualquer outro esporte de equipe, o teu horário de treino não poderia ser só poderia ser respeitado se os outros fossem confiáveis. Se o teu parceiro de tenis falta ao treino a tua sessão de exercícios vai por água baixo.

Se você escolhesse praticar yoga, caminhada, corrida ou qualquer outra atividade que você não dependesse dos outros, tudo o que você faz depende apenas do seu próprio compromisso com a atividade.

A mesma coisa é verdadeira quando se trata de amor e aceitação. Se você se compromete em se amar e se aceitar no dia-a-dia, você se sente bem mesmo quando os outros não te elogiam ou não te concedem atenção. Você não depende dos outros para se sentir bem. Você se sente bem e dá aos outros o espaço necessário para que eles possam sentir o que quer que seja que eles experimentem com relação à você.

Não é necessário que os outros te amem. Se eles te amam, muito bom, porém se eles não te amam, isto não terá um efeito devastador sobre você. O sentimento do teu próprio valor deve se estabelecer independentemente dos pensamentos e dos sentimentos dos outros. Isto é autêntico. Isto é substancial. É um reservatório de força emocional onde nós podemos nos nutrir num período de necessidade afetiva.

A necessidade de obter a atençaõ do outro não tem nenhuma relação com o amor. O amor é a aceitação e atenção que nós nos concedemos à nós mesmos, aceitação e atenção que se estende naturalmente aos outros. Assim que você toma conta de si mesmo, você transborda de energia e de entusiasmo e é espontaneamente que você oferece o teu apoio aos outros. Você lhes dá espaço para ser o que eles são. Você é capaz de ser você mesmo sem se sentir obrigado a se desculpar, então tua presença coloca os outros em contato com seu próprio poder.

As pessoas se sentem bem na presença do amor. Porém  se tudo o que eles recebem são pedidos de amor e de atenção, eles sentem um mal estar.

Uma vez que você aprendeu a responder ao teu próprio apelo de amor, é mais fácil de lidar com a grande necessidade de atenção do outro. Você vê a criança machucada nele e reaje com compaixão. Você compreende que a necessidade de amor dele e a necessidade de amor sua são uma só e mesma coisa.  Desta maneira você não recusará de oferecer amor mesmo nas situações de maus entendidos e nos pedidos inapropriados do outro. E isto será possível para você porque você aprendeu a se amar através da tua própria necessidade de amor e do teu próprio sofrimento.

Quanto mais você responde frequentemente ao teu próprio apelo de amor e ao apelo do amor do outro, mais se torna fácil de responder com amor em quaisquer que sejam as circunstâncias. 

La Route Vers Nulle Part –  Paul Ferrini – Tradução livre de Jorge Salum

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